Um Hino de Natal Reinterpretado

Isaac Watts foi, indiscutivelmente, o escritor de hinos mais prolífico de seus dias. Ele é conhecido por escrever tantos hinos atemporais, como “Behold the Glories of the Lamb” [“Contemple as Glórias do Cordeiro”] e “When I Survey the Wondrous Cross” [“Quando Examino a Maravilhosa Cruz”]. Entretanto, Watts é mais conhecido por ter escrito o hino “Povos Cantai” – uma canção tocada por todo mundo durante o Natal, em todos os anos.

Enquanto ele é muito apreciado hoje, durante sua vida Watts era considerado por muitos uma perturbação ao status quo, e até mesmo um herege, possivelmente por causa das letras que escrevera. Ao mesmo tempo que não era um herege, era um revolucionário.

Watts cresceu num mundo no qual a música, em todo culto de adoração, consistia apenas de salmos ou de seções da Escritura cantadas. Watts achava a prática monótona. Para ele, havia falta de alegria e emoção entre os congregantes no cantar. Uma citação famosa dele: “Ver a tediosa indiferença e o ar negligente e irrefletido que paira sobre as faces de toda uma assembleia enquanto o salmo sai de seus lábios pode até mesmo tentar um bondoso observador a suspeitar da fervência de sua religião interior”.

 

Pioneiro da Hinologia

O pai de Watts criou um desafio. Ele disse a Watts que, se havia incômodo com as canções que eram cantadas, deveria fazer algo a respeito. Talvez ele tentasse escrever algo diferente. Esse momento colocou Watts numa busca, ao longo de toda a sua vida, por escrever letras que exaltassem a Cristo e relembrassem os cristãos de sua esperança na obra salvífica da cruz.

Esse desejo é evidente na forma que ele escreveu “Povos, Cantai”. Watts fora inspirado a escrever esses versos atemporais enquanto meditava no Salmo 98. O versículo 4 o cativara firmemente: “Celebrai com júbilo ao SENHOR, todos os confins da terra; aclamai, regozijai-vos e cantai louvores”. E é exatamente isso que Watts buscou fazer. Ele não sabia que essa canção iria despertar um ruidoso júbilo que ecoaria ao longo do tempo.

 

Foco na Segunda Vinda

Ao mesmo tempo que “Povos, Cantai” é primariamente cantada no Natal, não fala a respeito da encarnação. Ao invés disso, a canção conta a história da volta de Cristo – a sua segunda vinda. Sabemos disso por pelo menos três razões.

Em primeiro lugar, a canção fala a respeito de toda a terra recebendo seu Rei:

 

Povos, cantai: Jesus nasceu!

Saudai o grande Rei!

Que cada ser lhe dê lugar

Oh, terra e céus cantai!

 

Mas foi isso que aconteceu quando Cristo nasceu? Afinal, a Escritura nos diz que ele não foi prontamente recebido por todos.

“Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso.” (Isaías 53:3)

A terra não recebera o seu Rei; mas, como ovelhas, se desviou. Mesmo assim, sabemos que haverá um dia em que isso não será assim:

“Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra” (Filipenses 2:9-10)

Naquele dia, tanto o céu quanto a natureza irão cantar e repetir o feliz refrão por toda a eternidade.

Em segundo lugar, sabemos que esse hino é uma canção a respeito da segunda vinda de Cristo porque a segunda estrofe fala a respeito de um mundo sem tristezas:

 

O Salvador chegou! Cantai!

Saudai-o em canções!

Montanhas, vales e a criação

Repitam o refrão, repitam o refrão

Repitam o feliz refrão!

 

Se você viveu nessa terra por mais de dois minutos, sabe que essa não é nossa experiência atual. Em Marcos 13, Jesus antecipou o que estava por vir após sua morte:

“Porque se levantará nação contra nação, e reino contra reino. Haverá terremotos em vários lugares e também fomes. Estas coisas são o princípio das dores.” (Marcos 13:8)

 

O mundo não está livre do pecado. O mundo não é vazio de tristezas. Não ainda, pelo menos. Jesus nos diz que nós não devemos ficar alarmados quando ouvirmos falar da fragilidade do mundo. Por quê? Porque “é necessário assim acontecer, mas ainda não é o fim” (Marcos 13:7). Hebreus 10 nos diz:

“Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus, aguardando, daí em diante, até que os seus inimigos sejam postos por estrado dos seus pés.” Hebreus 10:12-13

Embora o cumprimento de toda a obra de Cristo não seja totalmente expresso neste lado da eternidade, sabemos que haverá um dia em que será. Cristo está assentado à mão direita do Pai, esperando até o momento perfeito – um tempo no qual todas as coisas boas poderão ser fruídas. Por isso, temos esperança.

Em terceiro lugar, a terceira e última estrofe revela que esse hino fala sobre a segunda vinda. Ela diz:

 

Seu reino é de retidão

Provai-o, ó nações!

As glórias mil de suas mãos

E do seu grande amor, e do seu grande amor

O seu tão grande amor cantai!

 

Essas linhas finais falam de como as nações terão um papel ativo no revelar da glória de Deus. Sabemos que todas as nações da terra estão definitivamente sujeitas à mão eternamente soberana de Deus. Ele é o que concede a autoridade, e ele é quem a retira. Ele usa todo erro, toda decisão equivocada, toda guerra, toda calamidade e toda época de prosperidade, tudo isso para a sua glória. Mas, não vimos ainda as nações deste mundo buscando, intencionalmente, provar as maravilhas e glórias do nosso Rei definitivo. Na verdade, elas constantemente buscam difamar o nome de Deus. Mas, ele não divide a sua glória com outro. O Eu Sou é zeloso pelo seu nome. Com certeza, haverá um dia no qual poderemos dizer: “Seu reino é de retidão; provai-o, ó nações”. E esse dia será maravilhoso.

Afinal, É um Hino de Natal?

Então, por que cantamos essa canção no Natal? É claramente uma canção sobre a segunda vinda de Cristo – quando a plena expressão de sua glória será revelada. Isso não tem, realmente, nada a ver com a história do Natal. Ou tem? Afinal, não há segunda vinda sem uma primeira. Essa canção tem tudo a ver com o cumprimento de tudo que Cristo veio fazer em primeiro lugar. O Natal não é apenas um tempo para olhar para trás, para a graça realizada no passado. O Natal é também um tempo de olhar para a frente, para a graça que foi realizada para o nosso futuro. Quando cantarmos essas palavras, estaremos proclamando a alegria derradeira a ser revelada. É por isso que cantamos “Povos, Cantai” no Natal.

 

“Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram. E aquele que está assentado no trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E acrescentou: Escreve, porque estas palavras são fieis e verdadeiras.”  (Apocalipse 21:1-5)

 

Alyssa Poblete é a esposa de Chris, e mãe de Geneva e Haddon. A família deles plantou a “King’s Cross Church” em Orange County, California, na primavera de 2017. Alyssa estudou literatura inglesa na Concordia University e trabalhou no ministério local da igreja por alguns anos. Sua paixão é ver mulheres conectarem o poder transformador do evangelho às suas vidas diárias através de um entendimento sempre crescente da Palavra de Deus. Você pode segui-la no Twitter.


Usado com permissão de The Gospel Colition
Texto traduzido por João Pedro Cavani

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